A Água Batizada da Solidão - Kalleb Dayan

Uma experiência com ratos revelou que o vício pode ser menos sobre a droga e mais sobre a solidão. Partindo dessa metáfora, este texto confronta o modo como vivemos hoje: isolados, fragmentados e desconectados da essência coletiva da existência.

A Água Batizada da Solidão

Vício ou vínculo? O experimento do ‘rat park’ e por que pertencimento cura mais do que picos químicos. Uma reflexão sobre comunidade.

Atualizado há 71 dias, 20 horas / Tempo de leitura: 2 minutos

Buscando respostas sobre a dependência química, uma equipe realizou um experimento com ratos. Eles colocaram um único rato, isolado, em uma grande gaiola. De um lado havia apenas água; do outro, água misturada com cocaína. Durante o período do teste, o rato sozinho abandonou a água pura e passou a consumir exclusivamente a água batizada.

Depois, o mesmo rato foi inserido em uma gaiola ampla, com diversos outros ratos. Havia novamente duas opções: água pura e água com cocaína. Nos primeiros dias, o ratinho ainda buscava a água batizada, mas, gradualmente, foi reduzindo seu consumo. Com o tempo, passou a preferir a água natural — até que abandonou completamente a água com cocaína. Chegou ao ponto de rejeitá-la mesmo quando as posições das garrafas foram trocadas.

Laboratório mostra contraste entre isolamento e convivência em experimento com ratos, sob o olhar reflexivo de um cientista.
Cientistas analisam o impacto do isolamento em ratos, refletindo sobre o papel da convivência na cura de vícios e transtornos emocionais.

Não é bom que o homem esteja só…”

Quando Deus criou Adão, como está registrado na Bíblia cristã, não demorou muito para declarar essas palavras. Nossa essência vem de um ser que vive em conjunto, pois, segundo o relato bíblico, Deus disse:

“Façamos o homem à nossa imagem e semelhança…”

Fomos concebidos para viver em comunidade, para apoiar-nos mutuamente, para compartilhar com nossos semelhantes — e com o próprio mundo — a vida que nele se expressa.

Mas, de um século para cá, enfrentamos uma chaga grave, gerada por um modelo de desenvolvimento social profundamente influenciado pelo capitalismo. Estamos cada vez mais em busca de uma suposta individualidade, de uma independência em diversas dimensões.

Isso é visível no esforço de lideranças governamentais em promover o discurso da “inclusão” — ao mesmo tempo em que cresce assustadoramente o número de doenças psíquicas e transtornos mentais.

Algo não está certo.


A Contramão da Nossa Essência

Fomos criados para cuidar uns dos outros. Para nos dedicar ao outro — não como um objeto de desejo ou meio para algum fim, mas como portador da mesma vida que habita em nós. Cada pessoa traz uma alma, expressa algo sagrado em suas qualidades e também em suas fragilidades.

Ela está aqui. Eu estou aqui. E você também.

Não é maior quem tem algo a oferecer do que aquele que tem uma necessidade a ser acolhida.

E, diante disso, perguntamos: não estamos indo na contramão da nossa essência?

Buscamos isolamentos — individuais e coletivos. Isolamentos de classe social, de ideologia, de linguagem, de valores. Muitas vezes, esses muros são a “água batizada” da nossa própria existência.


O Chamado à Unidade

Todos nós somos um só universo, provenientes de uma única fonte de vida. Mas insistimos em crenças que nos limitam a partes — ignorando a grandeza de sermos, juntos, humanidade.

Não queremos mais estar sozinhos. Tampouco queremos estar encarcerados em pequenos grupos. Queremos estar em tudo, viver tudo — porque estamos vivos.

E viver é compartilhar tudo com o todo.

Quer Compartilhar?
Kalleb Dayan
Kalleb Dayan

Sua mente cria mais do que pensamentos. Escrevo para quem pressente que existe algo além da rotina — e ousa descobrir.

"Que impere em mim a humanidade como raça e o amar como religião." Kalleb Dayan

Artigos: 31